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  • Mariana Siqueira

Como tudo começou

"Eu vim aqui para te convencer que o que você quer fazer é possível."


Era o meu primeiro trabalho em Brasília. Em 2014, eu chegava na cidade depois de uma década e meia em diferentes lugares e trabalhos, sem nunca ter morado no Planalto Central. Estava há sete anos trabalhando com arquitetura paisagística e abria, por fim, o meu próprio escritório. Depois de uma ou outra colaboração com outros profissionais, era a hora de fazer meu primeiro projeto autoral no novo contexto.


E não era qualquer projeto – era para fazer os jardins de uma casa da Bloco Arquitetos, um escritório de Brasília super relevante. O primeiro encontro com a cliente, que havia encomendado uma casa de campo à Bloco, aconteceu no próprio escritório dos arquitetos, em sua elegante sala de reuniões. E a primeira coisa que ela me disse foi: “Eu quero um jardim bem do Cerrado. Nasci e cresci no Cerrado e agora, que vou fazer minha casa, quero voltar para ele.”

Anotei no meu caderninho. “Jardim bem do Cerrado. Com horta. Um espaço para dar muitas festas.” Peguei mais algumas informações e, animada, voltei para o escritório para, durante os dias seguintes, juntar conceitos e referências.


Cheia de carinho pela flora do Cerrado, reuni imagens da internet de campos nativos cheios de capins entremeados por ervas e arbustos de inflorescências coloridas. Em uma das páginas de minha apresentação para a cliente, coloquei essas fotos.


Na folha seguinte, agrupei fotos de jardins do holandês Piet Oudolf, expoente máximo do movimento de jardins naturalistas contemporâneos. Ele fez, por exemplo, os jardins do High Line Park, em Nova Iorque, que têm um caráter selvagem e parecem ter crescido espontaneamente sobre os trilhos do trem. Neles, predominam, justamente, os capins junto a ervas e arbustos floridos, em composições que, a mim, lembram comunidades vegetais do Cerrado.


Na reunião seguinte, apresentei, a clientes e arquitetos, minhas ideias iniciais para os jardins. Fiz um zoneamento da área indicando, sempre com fotografias de referência, os variados itens do programa de paisagismo (horta, praça da fogueira, redário, praça sombreada etc.). E, ao redor da casa, deixei uma mancha verde-oliva em cuja legenda se lia: Jardim de Cerrado.


Mostrei as fotos dos campos nativos e as dos jardins de Piet Oudolf e teci relações entre elas. A ideia era fazer uma interpretação cultural dos campos do Cerrado através de composições que misturassem capins, ervas e arbustos nativos. Clientes gostaram, arquitetos também.


Estudo preliminar aprovado, era hora de visitar os viveiros locais em busca das plantas ideais para compor o novo jardim.


E foi aí que aconteceu.


Não encontrei nenhum – nem um – capim, erva ou arbusto como os que tinha em mente para comprar. Encontrava, sempre, mudas de árvores nativas. Mas dos outros tipos de plantas, encontrei apenas negativas.


Mas o que era aquilo? Por que ninguém produzia ou vendia aquelas plantas maravilhosas do Cerrado? A resposta era invariável: porque era impossível. Se plantadas, as espécies não nasciam. E, se nasciam, não cresciam. E, se cresciam, morriam de repente, sem explicação. Um verdadeiro mistério.


Comecei a conversar sobre isso com todo mundo que me aparecia pela frente, o assunto se tornou uma espécie de obsessão. E a resposta era sempre a mesma: impossível. Ouvi isso de muita gente, de variados campos profissionais.


Passei a circular em meios que discutiam a conservação do Cerrado e a caminhar por seus campos, atenta às inúmeras maravilhas que surgiam ladeando as trilhas. Intrigada, mas estranhamente animada, vi eclodir em mim uma verdadeira paixão por aquelas plantas e pelo imenso e antigo bioma que as abriga.


O tempo passava e eu aprendia coisas sobre o Cerrado. Não sabia, até então, que o Cerrado é uma savana. Achava que a savana ocorria apenas na África e que era sempre lar para girafas e elefantes. Não sabia, portanto, que, entre as savanas do mundo, o Cerrado é a que tem mais biodiversidade. Não sabia que – dizem – é o bioma mais antigo da Terra. Nem que é nele que se infiltra a água que, depois, vai virar nascentes e rios América do Sul a fora. O Cerrado é um tesouro, descobri.


Descobri, também, que ele está sendo aniquilado enquanto eu escrevo e vocês leem este texto.

Enquanto eu seguia perguntando e ouvindo negativas, me dei conta de que utilizar as plantas nativas do Cerrado era apenas um dos desafios que eu teria para fazer o jardim da Casa Vila Rica. Ocorre que seu terreno estava totalmente tomado pela braquiária, um capim exótico – trazido justamente das savanas africanas – introduzido no Brasil para pecuária. Por aqui, ele tornou-se uma planta invasora de muito difícil – e aqui também cheguei a ouvir a palavra ‘impossível’ – remoção.


Que enrascada.



Se, diante de um cenário com tantos obstáculos, a questão da braquiária poderia ter sido desanimadora, foi dela que surgiu a luz no fim do túnel. Pois, ao somar a questão ‘como remover o capim exótico?’ a ‘como plantar nativas?’, ouvi, de duas pessoas diferentes, os mesmos três nomes. “Você precisa conhecer o Claudomiro Cortes, o Alexandre Sampaio e a Isabel Schmidt”, me disseram. Eles estavam conduzindo um projeto de restauração ecológica no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, substituindo a braquiária de antigas fazendas que foram incorporadas ao Parque por plantas nativas – não apenas por árvores, mas por capins, ervas e arbustos. Anotei os contatos e, dias depois, escrevi ao Alexandre Sampaio, analista ambiental do ICMBio. Sua resposta chegou no mesmo dia:


“Mariana, tenho grande interesse em colaborar com sua iniciativa. Já temos muitas informações sobre cultivo de espécies herbáceas e arbustivas nativas que podem ser úteis para o seu trabalho.”


E foi assim que, em um final de tarde de agosto de 2015, o Alexandre Sampaio – o Xandão – apareceu no meu escritório para trocarmos ideias. Não foram necessárias muitas delas para ele afirmar, categoricamente:


“Eu vim aqui para te convencer que o que você quer fazer é possível.”


Não é de se estranhar que, quando, enumerando as diversas plantas com potencial ornamental do Cerrado, o Alexandre mencionou as margaridas – minhas florezinhas preferidas, que eu nem sabia que existiam no Cerrado – tive que enxugar uma lágrima que teimou em brotar no canto do meu olho.




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