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  • Mariana Siqueira

Primeiros giros da Catavento


O contato com a Aline e o Carlos começou como deveria, na pandemia: virtualmente. Eles propuseram uma reunião online para conversar sobre o projeto que iniciavam, sua casa. Nesse momento, não tinham ainda um desenho em mãos: estavam em vias de contratar o talentoso arquiteto Samuel Lamas para fazer o projeto. Fiquei animada. Numa cultura em que as áreas livres são muitas vezes consideradas secundárias diante do objeto arquitetônico, ser procurada por clientes antes mesmo dos primeiros croquis da arquitetura serem lançados foi muito gratificante! E me encheu de responsabilidade.


Eles mandaram muito bem na escolha do terreno, uma área de 2.200m² em um condomínio simpático no Park Way, em Brasília. Na forma de um L ao redor do seu lote, somam-se outros quase 4.000m² de área comum do condomínio que integram visualmente a paisagem da futura casa. Ali, eles naturalmente não podem construir - mas podem plantar. O escopo do projeto inclui, portanto, qualificar paisagisticamente aquela área, onde hoje predomina um pasto de braquiária.



Mas não só de braquiária se faz o terreno da Aline e do Carlos, e a área em torno dele. Ali há também um gramado, uns eucaliptos, umas mangueiras e uma grande bananeira. Ao menos seis ipês-roxos ornamentam a porção frontal do lote. E mais importante - muito mais importante -, há um legado de árvores remanescentes do cerradão que um dia existiu no lugar. Plantas muito antigas, quiçá centenárias, que contam histórias - para ouvidos que as queiram ouvir - de um passado em que não havia mangueiras e eucaliptos; não havia condomínio, não havia Park Way, não havia Brasília. Plantas que acumulam muito tempo em suas cascas e que viram tudo mudar em questão de poucos anos.


As sucupiras são duas, uma grande e uma enorme (com uns bons 10 e 20m de diâmetro!). Abafado por uma das mangueiras, há um belo pequizeiro. Escondido em meio a uma cerca viva de sansão-do-campo encontramos, esta semana, nada menos que um tamboril alto carregado de sementes. Seriguelas há três, o mesmo número de Syagrus flexuosa (uma pequena palmeira nativa bastante ornamental) espalhadas pelo pomar. Vasculhando pela profusão de espécies recentemente plantadas, parece sempre haver algo nativo para encontrar.


Fotos: clientes


A casa foi sendo desenhada. Serão quatro blocos interligados por um pátio central, configuração que lhe rendeu o nome de Catavento. Enquanto isso, fomos tomando algumas providências que antecederam o projeto de paisagismo: suprimir, transplantar e revelar.


Suprimimos uma das mangueiras, aquela que estava fazendo sombra no pequizeiro. Se é bem verdade que todas as plantas têm o seu valor, também é verdade que por vezes elas podem ser introduzidas em lugares inadequados. Deve ter sido difícil imaginar que uma simples mudinha poderia, um dia, prejudicar uma árvore existente alta e antiga como o pequizeiro. Mas ela o fez. Talvez dê para ver, nas fotos tiradas após a supressão, o quanto o pequizeiro deixou de investir em galhos e folhas no lado voltado para a mangueira para fugir dela, na direção contrária. Ao menos, há um bom espaço entre ele e o paredão de eucaliptos!



Transplantamos três indivíduos que estavam no perímetro de construção da casa: uma seriguela, uma fruta-de-papagaio e um ipê-roxo. Na contratação desse serviço ficou clara a sensibilidade dos clientes - com tantas árvores espalhadas no lote, investir em resgatar três plantas é só para quem realmente vê valor em cada uma delas. Clara ficou, também, a competência de um querido parceiro, o agrônomo e paisagista Sérgio Borges, que conduziu a empreitada. Enquanto o transplante de seriguela e ipê não são mistério para os mais experientes, o da fruta-de-papagaio poderia facilmente dar errado utilizando-se a técnica convencional de desmamar a planta cortando primeiramente suas raízes laterais. Sérgio inovou ao inverter o protocolo, cortando a raiz pivotante semanas antes de cortar as demais. O tempo dirá se o procedimento deu certo, mas ao menos por ora, todas as plantas passam bem, já reposicionadas.


E revelamos - ou melhor, deixamos que se revelassem - plantas nativas que estavam escondidas pela braquiária. A ideia surgiu a partir de um comentário do Sérgio Borges: “vocês viram quanta planta nativa jovem tem aos pés dos eucaliptos? Isso é porque a roçadeira não vai ali.” A não ia nos eucaliptos, mas ia, a cada quinze dias, no pasto de capim exótico, levando junto os ramos de ervas, arbustos e árvores nativos que ainda teimam em rebrotar ali. Suspendemos a roçadeira por algumas semanas e começamos a marcar os indivíduos que surgiam, como surpresas vegetais. Caliandras, catuabas, cajuzinhos, mata-baratas (um nome feio para uma planta linda, uma árvore subterrânea que emite apenas a ponta de seus galhos para fora da terra). Enquanto pensamos em como restituir, não a complexidade do ecossistema, pois isso seria impossível, mas ao menos algo da imagem do Cerrado deste lugar, deixamos as plantas crescerem em meio à braquiária, em um território que lhes é de direito. Sua distribuição no espaço informará o desenho do jardim.



Se já é certo que vamos trabalhar para substituir a braquiária por capins, ervas e arbustos nativos, ainda pensamos, por outro lado, em como abordar as mangueiras e os numerosos eucaliptos que, em sua maioria, enfileiram-se no fundo do lote. Para mim, confesso, são evidentes ruídos visuais. Mas talvez mantê-los no jardim tenha a potência de um discurso franco: o Cerrado intocado, a Natureza intocada, já não existem mais. Podemos assumir transformações - mesmo que por vezes incômodas e indesejadas - e traçar limites entre aquilo que podemos aceitar e aquilo que precisamos rejeitar. Se aceitássemos tudo, o mais coerente seria construir a casa em meio a um grande canteiro de soja e irrigá-la com a água de um poço artesiano ilegal. Mas não vamos plantar soja; vamos tentar recuperar algo da vida que um dia houve ali, e associá-la a horta, pomar, piscina... em um exercício de convivência. Ainda não aprendemos, de fato, a conviver com o Cerrado, nem nas casas, nem neste território que vai do Paraná ao Piauí. Que os jardins possam ser pontes e metáforas para habitar a savana brasileira. A partir de agora, o Cerrado é o que a gente fizer dele.


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