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Viagem a Bérgamo

  • Foto do escritor: Mariana Siqueira
    Mariana Siqueira
  • 1 de dez. de 2025
  • 12 min de leitura

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Vinte e quatro horas de meia.

E agora, os pés descalços sobre um dos assentos de couro da van que veio me pegar no aeroporto de Malpensa, em Milão. Junto do motorista Roberto, com quem consegui trocar umas poucas palavras em italiano. Estamos indo rumo ao jantar de recepção do Landscape Festival em Bérgamo, onde vou palestrar este ano. Vamos direto do aeroporto pois minha viagem atrasou nada menos que sete horas e uma conexão adicional, em Madri. Onde me sentei em uma poltrona na confusa sala de embarque para montar minha apresentação de amanhã e para comer a última parte dos sanduíches que o Gerhard carinhosamente preparou para mim: pão feito em casa, salame, queijo bom, pepino em conserva, tomate, mostarda. Estava perfeito. Vieram juntos com grossas fatias do bolo de vinho que ele assou na noite anterior à minha partida, perfumando a casa, e duas bergamotas, castanhas com damasco, barra de cereais, e a típica banana com inscrições de amor na casca. Não sobrou nenhuma migalha, depois de quatro aeroportos e três voos.

No primeiro voo, me sentei ao lado de uma química que puxou papo comigo depois de me ver meio desesperada tentando falar com um atendente da Latam no aeroporto de Porto Alegre, onde a viagem começou. O tal voo atrasou duas horas e com isso eu perdi a conexão que me levaria diretamente a Milão. Fiquei com medo de perder o evento, imaginando os organizadores anunciando à plateia que “Mariana infelizmente não pôde estar conosco no dia de hoje”, mas nem por isso consegui fazer o escândalo que o momento pedia. Mesmo assim, alguns passageiros viram e se solidarizaram. Essa química desenvolveu uma técnica para injetar herbicida e outros produtos diretamente no tronco das árvores, evitando contaminações ambientais, e nos regozijamos falando mal do Bolsonaro e de tudo que ele representa — falando bem baixinho, pois o rapaz sentado ao lado dela “também era do agro” (“eu sou da conservação”, contrapus), e era forte e usava camisa polo justa e tinha cabelo curto e barba raspada, e só podia ser de direita.

Já no voo para Madrid fiz um coquetel contendo vinho, antigripal, travesseiro, cobertor e podcast que deu bastante certo, dormi ao menos umas cinco horas. No voo para Milão terminei de montar a apresentação e no aeroporto troquei de blusa pra ficar mais apresentável. Vamos ver o que me aguarda.


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Fiquei chocada com o charme do hotel onde foi a recepção. Jardins românticos, daqueles de revista, iluminação idem. Devo ter esperado quase duas horas pelos demais. Troquei de roupa novamente: fiquei me sentindo uma caipira diante da italiana gerente do hotel, com suas roupas largas, blazer claro, cabelos soltos, pulseiras. Mas aguentei firme, com uma insinuante dor de garganta e um eminente estado febril. Antecipava o vinho, os quitutes, o jantar. Aos poucos, os outros paisagistas foram chegando. Dei de cara com o Tommaso, que há umas semanas estava fazendo imersão comigo no ateliê da Chapada. Ele é da organização deste evento. Vi a Bettina Jaugstetter, alemã, com quem conversei a maior parte do tempo. Descobri que o cidadão ao meu lado na rodinha apresenta um programa de TV sobre jardins na Austrália (o Dream Gardens). Vi a Sarah Price e ela é tão linda ao vivo quanto pelas fotos na internet.

Bom. Serviram uma canoinha de polenta crocante (macia por dentro) com um guisado de cogumelos com trufas que me fez vibrar e antecipar tudo que vinha pela frente. Vieram então um bolinho fofinho com raspas de limão siciliano, bom, e um crocantinho com creminho de beterraba, bom também… e um risoto de tomate que me fez entender que no Brasil jamais comi um risoto feito do jeito certo. Esse jantar ia longe!! Fiquei ansiosa pelo próximo prato. Aí surgiu um garçom com um petisco marrom, o que poderia ser? Mordi. Chocolate!!? Não!!! Não podia ser! Comi dois antes de pedir a outro garçom mais um pratinho de risoto, que ele categoricamente negou. Era o meu fim!, ver o jantar já terminando depois de um dia sem uma refeição sequer. Comi um canolli de creme e pistache a contragosto, agora terrivelmente desanimada e cansada. Ainda tive que conversar com uma simpática garota italiana, que era jovem e bonita demais para o meu estado de espírito; minha alma se esvaía pelos pés enquanto mordia os últimos pedaços do canolli, supondo que é dele que vêm os canudinhos de Minas Gerais. Pobre de mim.

Pegamos um ônibus do evento e eu fiquei um pouco com vergonha do tamanho de uma das duas malas que eu levava para passar três dias ali. Depois fomos deixados em um dos portões da muralha medieval da Città Alta, e tivemos que subir a pé até o hotel porque o ônibus não passava pelo portal. Gastei meus últimos espasmos de energia para subir aquelas ladeiras carregando aquelas malas. Não queria fazer barulho arrastando-as pelas calçadas de pedra para não incomodar ninguém, já que era tarde da noite, e para não chamar atenção dos outros palestrantes para o tamanho descomunal da minha bagagem. E foi assim que cheguei ao hotel, ao quarto, ao chuveiro, à cama. Acabei interfonando para a recepção e perguntando se eles teriam qualquer coisa que fosse para eu comer. O rapaz foi simpático e disse que me faria uma torrada com salame. Passei os momentos seguintes rezando para ele lavar as mãos antes de preparar o lanche (ele não era da cozinha, sim da recepção). Quando chegou, dei-lhe uma bela gorjeta e afastei os pensamentos de cunho sanitário. Achei interessante que, junto do sanduíche e do suco, ele trouxe uma tigelinha de azeite de oliva, na qual fui mergulhando o lanche a cada mordida. Nunca tinha visto isso. Com a barriga cheia, dormi suficientemente bem.


3


No dia seguinte de manhã já era a vez da minha palestra. Comi a mesmíssima coisa que o rapaz da recepção tinha levado para mim na noite anterior, estava mesmo bom. Depois saí caminhando encantada pela cidade de Bérgamo, tão charmosa. Nunca vi um uso tão intensivo de trepadeiras, subindo, pendendo, sendo conduzidas em arcos para todo lado. Alguma coisa eu fiz direito nessa minha profissão, se ela me materializa embaixo de um arco verde e charmoso junto a uma muralha milenar numa cidade tão bonita do outro lado do oceano — com tudo pago.

Fui pedindo informações, e quase sendo atropelada no confuso trânsito das vielas medievais, até chegar a uma rua estreita cheia de gente e de lojas. Quando dei por mim, estava diante do tal Teatro Sociale, que tem mais de duzentos anos, e que não é tão imponente por fora, mas impressiona por dentro. Recebi a pulseirinha prateada que, depois vim a saber, era para os chiques e os chiquérrimos do evento. Fui atrás do palco para pedir que o responsável pela parte técnica trocasse a minha apresentação — que eu já tinha mandado semanas atrás, mas que estava desatualizada — por outra que eu lhe traria em cinco minutos. Ele achou bizarro que eu ainda quisesse alterar alguma coisa àquela altura do campeonato, mas, mal sabe ele, nada novo sob o sol. Tirei da apresentação um projeto que não tinha flor alguma nas fotos, o Balão, pra mais tarde me arrepender de tê-lo feito, já que o tema deste ano era justamente “New urban ecosystem”, e aquele era o único jardim num espaço público no Cerrado que eu tinha para mostrar. Tarde demais.

Atrasadas, as apresentações começaram. Eu me surpreendi ao ver que ainda era capaz de entender 90% do italiano. Muitas autoridades vieram falar. Depois veio uma apresentação longuíssima sobre as praças italianas ao longo da história, que foi deixando o anfitrião com os cabelos de sua careca cabeça em pé, porque não acabava nunca. Teve bom que o palestrante terminou com uma foto-denúncia de Gaza toda destruída, que arrancou aplausos de todos. Quando por fim subiu a Sarah Price para falar sobre o processo de criação do jardim-instalação que ela fez na Piazza Vecchia, tudo já estava atrasado em ao menos uma hora. Em seguida veio o Nigel Dunnett apresentar o James Hitchmough, e foi muito bonito ouvi-lo dizer que o James é o maior horticultor e paisagista vivo, o que é mais que um baita elogio, é um baita reconhecimento de um par com quem — somos humanos — já deve ter rolado algum tipo de rixa ou competição. Aí o James deu seu habitual show — ele tem experiência e conhecimento demais! Mas fiquei um pouco impressionada com ele reconhecer — a essa altura de sua vasta experiência — que os projetos naturalistas estão todos fadados ao fracasso se não receberem manutenção feita por um profissional tão esclarecido quanto o próprio designer. Disse que precisamos convencer os clientes a investirem mais na manutenção e menos no projeto, imaginem isso dito por um projetista. Fica cada vez mais claro que a quase inexistência desse jardineiro é um problema global, até mesmo nos países com grande cultura paisagística. Ele concluiu com muitas perguntas, como ‘como vamos fazer para formar tais profissionais’? Depois veio um australiano, o Jon Hazelwood, que está fazendo na Australia alguns testes para introduzir espécies nativas no espaço público — ele falou algumas coisas parecidas com o que eu ia falar em seguida.

O anfitrião continuava arrancando seus inexistentes cabelos com o avançado da hora. Resultado, não houve coffee break antes de eu falar. A senhora que na sequência ia me apresentar se agachou ao meu lado para perguntar: ‘é assim que se pronuncia seu nome?’, ‘você é arquiteta, certo?’, ‘posso dizer que você é jovem: uma jovem arquiteta?’. Pode, uai, se quiser pode sim. Ser jovem me dá o benefício de ser aprendiz, importante pra quem vai falar depois dos nomes que já tinham subido no palco naquela manhã.

Eu chego a me espantar com o quanto eu não fico nervosa com falar em público. Em nenhum momento durante a manhã meu coração acelerou, minha boca secou, meu sovaco molhou ou eu senti frio na barriga. É quase inexplicável, não é? O Teatro estava cheio, tinha muita gente até nos camarotes que coalhavam as paredes que já devem ter testemunhado muitas e muitas óperas. É que eu conheço muito bem a mensagem que quero passar. Já dei essa palestra, com evoluções, ao menos umas noventa vezes desde 2016. E sei que, assim como no Brasil meu sotaque mineiro me abre portas, no exterior minha brasilidade me torna exótica e simpática. Tem muito erro não.

Pois lá fui eu para, já em cima do palco, descobrir que eles me dariam trinta minutos apenas, ao invés dos trinta e cinco combinados. E olha que pra variar eu tinha muito slide pra mostrar, dessa vez eram mais de duzentos. A única coisa ruim foi que, sendo a luz em mim muito forte, eu não conseguia ver os rostos na plateia, então não conseguia medir o quanto as piadinhas surtiam efeito ou o quanto o povo se comovia ou não. Fui falando no escuro mesmo — ou no claro demais. Rolou uma ovacionada quando, já concluindo a parte sobre os jardins de cerrado, mostrei a foto em que ostento a matéria sobre os jardins da casa Vila Rica na revista do The New York Times sentada numa poltrona no meio do capinzal.

Mas dessa vez eu ainda ia mostrar mais. Pela primeira vez, nesse tipo de evento, mostrei os projetos que tenho no sul: Revelar o Pampa, Rio Grande, e Memorial às Vítimas da Kiss. Vi tirarem fotos dos meus desenhos feitos a mão. Concluí com a reflexão sobre “nova ética, nova estética”, que antes ficava no meio da apresentação. Aproveitei para agradecer algumas vezes aos meus professores que estavam na plateia, dando uma olhadela específica para o James Hitchmough. Depois dos aplausos os outros palestrantes subiram ao palco e o James foi logo me dando um abraço bem apertando e dizendo, mas que apresentação extraordinária!, ao que eu apertei ele de volta e disse, venha ao Brasil! Estou confiante em montar um bonde dos (paisagistas) naturalistas para o Cerrado num futuro não muito distante. Às perguntas, acho que minha melhor resposta foi sobre que conselhos dar aos jovens, ou qualquer coisa assim. Eu disse: “É preciso pedir ajuda quando necessário: pedir ajuda me abriu muitas portas importantes. E é preciso ter coragem para errar. Quem só quiser acertar estará fadado a repetir o que foi feito antes. Mas quem quiser inovar vai ter que correr o risco de cometer erros em praça pública. Vai ter que aprender a não levar os fracassos ou os sucessos tão a sério assim.”


4


Depois veio o almoço e depois do almoço eu saí correndo e fui para o hotel dormir. Não sem antes pegar um gelato no caminho: de iogurte e de camomila com lavanda. Acordei a tempo só para voltar e ver o final da fala da Kathryn Gustafson e a rodada de perguntas da tarde. Que ruim perder tantas falas interessantes, mas a alternativa seria eu perder a saúde que eu tentava sustentar numa corda bamba (saí de Porto Alegre à beira de um resfriado). Eu acabei me distraindo olhando Instagram, depois de descobrir que tinha wi-fi público em Bérgamo. É que a essa altura minha conta estava bombando, entre postagens e repostagens, comentários e coraçõezinhos. Eu tinha tirado o app do meu celular, mas voltei a instalar para essa viagem. Tirei por motivos de vício e pude comprovar que continuo tão suscetível quanto sempre, ou mais: quando as redes bombam, quem consegue tirar os olhos da telinha?

Findas as atividades formais, saí para passear sozinha e fui sendo parada muitas vezes para colher felicitações pela minha fala, pelo meu trabalho, pela minha paixão, pela inspiração. As barrinhas da autoestima foram levantando e levantando. Deve ser cultural na Itália: ao menos três jovens me pararam para perguntar que conselhos eu daria para estudantes. Um deles me deu até um caderninho para eu anotar minhas ideias. Em linhas gerais, meu conselho foi: diferencie-se por meio da inteligência e da sensibilidade naturais, humanas. Pois acesso à inteligência artificial, todo mundo vai ter. Contei dos desenhos feitos a mão que me renderam uma vaga no West8, quando todo mundo já entregava portfólios com mirabolantes imagens digitais.

E fui andar. Bater perna por aí. Tomar mais sorvete. Ver as vielas de pedra e me perguntar o que elas já presenciaram. Quantas e quais gerações. Com quais roupas. Quais gestos. Quais hábitos. Se as pessoas eram parecidas ou muito diferentes de nós. Essas pedras já resistiram a tantos séculos, devem resistir a uns quantos mais. Mas resistiremos nós? É o que eu sempre me pergunto.

Depois me sentei em meio aos jardins da Sarah Price na Piazza Vecchia e não tardaram a chegar pessoas para conversar e parabenizar pela palestra. É que logo ali ao lado, sob uma arcada antiga, ia ser servido um jantar para os participantes do festival. Lá eu recebi uma chuva de carinho, apertos de mão, olhares de admiração. Custo a acreditar que um trabalho de uma proposição tão simples, que deveria ser tão básica — usar flora nativa do local onde se projeta — possa ser considerado tão inovador e tão inspirador para tanta gente em tanto lugar. Acho que foram os encontros que eu tive, e minha forma de articulá-los, que foram o meu diferencial, o que me permitiu realizar muito, em pouco tempo. Fora a minha forma de contar minhas aventuras e desventuras, que o povo gosta.

Gostei de interagir com todo mundo, mas simplesmente não conseguia encher meu pratinho de comida. Quando não era um, era outro que vinha falar comigo. Quando finalmente enchi o pratinho — pão, salame, queijo, uva — não conseguia comer, pelo mesmo motivo. Quando finalmente comi, vi que estavam servindo polenta (prato típico da região, que eu amo de paixão — vide os pequenos milharais que se espalham pela paisagem), e quando por fim cheguei na panela de polenta, ela tinha acabado. E foi assim que, pela segunda vez, precisei que o recepcionista do hotel me preparasse uma torrada com azeite para conseguir dormir. Se lavou as mãos, nunca saberei.


5


Na manhã seguinte, não consegui me levantar antes das 11h (5h no Brasil). O que me deu alívio, por conseguir descansar, e pena, por perder, mais uma vez, as palestras do festival. Almocei com a Bettina e o Cassian Schmidt, e com o Giacomo Guzzon, que é muito gente boa. Comi a massa típica da região, um tal de casoncelli, que estava uma completa maravilha. Por fim!! De tarde fiz comprinhas na rua principal (afinal, ao perguntado sobre ‘onde está a mamãe’, esses dias, o Chico respondia ‘na Itália, comprando presentes para mim!’). Deixei uma pequena fortuna numa loja com produtos trufados. Voltei ao hotel para descansar mais uma vez (pois é) antes do jantar. Jantei novamente com Bettina e Cassian, e com Sarah, Noel Kingsbury e uma colega polonesa cujo nome agora não me lembro. Fizemos um pacto de nos encontrarmos naquele mesmo restaurante em dez anos — e olha que quase não tínhamos bebido. Eu fiquei responsável por lembrar a todos.

No dia seguinte foi o longo trajeto de volta pra casa. No avião, assisti a uma temporada completa de The White Lotus. Oito horas seguidas. Escrevi e joguei sudoku compulsivamente. Comi o único macarrão da temporada no avião, um penne com gosto de nada. Fiquei exaurida. Cheguei em casa à uma da manhã, e fiquei espantada ao ver que o Gerhard me esperava de pé só para me dar as boas-vindas.

De manhã, depois de muito abraçar e beijar o meu filhote, tive que esclarecer que os presentes que ele ia ganhar eram só aqueles dois mesmo: um cavalinho de madeira e um livrinho com adesivos. Acho que ele esperava uma mala de presentes só para ele. Já de tarde liberei a televisão para vermos filmes, e eu poder dormir um pouco mais. Ele protestava: hoje não é fim de semana, ninguém pode ver filmes! Mas vimos igual.

Foi só entre uma cochilada e outra que foi caindo a ficha de tudo o que eu tinha vivido, do esplendor que foi essa viagem. De onde eu tinha falado, de por onde eu tinha andado, e de quantas mentes e corações minhas palavras tinham tocado. Mas a essa altura, a carruagem já tinha virado abóbora... Ficam as lembranças dos mágicos dias de festival — e o renovado apetite por abóbora.


Foto: Molly Hendry e @analogica.us
Foto: Molly Hendry e @analogica.us

 
 
 

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