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  • Mariana Siqueira

“Eu nunca tinha visto a cor das plantas”


Conheci o Claudomiro na caçamba de uma caminhonete que dispersava sementes em um projeto de restauração ecológica no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Era uma atividade do Restaura Cerrado*, coletivo que está inovando ao devolver, por semeadura direta, plantas nativas do Cerrado a áreas degradadas (não só arvores, mas ervas e arbustos também).


Naquele dia eu participava pela primeira vez do movimento e estava super animada com tanta novidade, semente, paisagem. Era novembro de 2015 e estávamos lançando seis toneladas de sementes em uma área de 36 hectares. Aquela era a culminância de meses de planejamentos e esforços por parte dos ecólogos e coletores de sementes, a hora da festa.



As sementes estavam sendo lançadas ao solo mecânica e manualmente, e eu estava na segunda equipe, fazendo chuvas de sementes sobre o solo fofo e nu, da caçamba de uma caminhonete que rodava para lá e para cá. E, em meio a tanta gente nova, foi só quando alguém o chamou o Claudomiro pelo nome foi que eu percebi que estava ao lado da pessoa que – rezava a lenda – tinha um dedo verde especial para plantar nativas e uma verdadeira fissura por coletar sementes.


- Então você é o Claudomiro – acho que eu nunca tinha abordado ninguém tão diretamente para propor uma parceria. – Estava querendo te conhecer porque quero fazer jardins com as plantas nativas do Cerrado e me disseram que você é o cara para isso.


- Olha, o Cerrado tem muita planta bonita, viu. E é 'facinho' de plantar, nasce demais.

Que ótimos esses parceiros que eu estava arrumando. Um veio ao meu escritório para me convencer de que o que eu queria fazer era possível, outra foi de cara listando que plantas eu poderia usar. Agora vinha este dizer que, para completar, não era difícil. Ele continuou:


- E a gente precisa plantar Cerrado. Eu nasci e cresci aqui, e tenho visto a água desaparecer das cachoeiras e riachos. Hoje chove muito menos do que chovia antes. Se continuar assim, as gerações futuras não vão nem conhecer o Cerrado, nem ter água para beber.


O cara.





Dois meses depois, eu estava de volta à Chapada para, pela primeira vez, conversar pra valer com o Clau sobre a ideia de fazer jardins com as nativas. E nada melhor do que sair por aí em busca delas, naquilo que, eu viria a saber mais tarde, é internacionalmente chamado de plant hunting (caça às plantas).


Passeamos por estradas e trilhas e o Clau, inteligente que é, soube me levar num lugar que era exatamente o que eu estava buscando: um campo limpo que tinha pego fogo no ano anterior e que agora estava pura flor, com mil tons de verde nas folhas: verde azulado, verde acinzentado, verde esbranquiçado, verde prateado. Com todas aquelas cores especialíssimas do Cerrado, os dourados, os tons de baixa saturação (rosinhas, roxinhos, amarelinhos, azuizinhos), outros tons super vívidos, e muito branco, um pouco de preto também.



Eu estava no céu. Ia correndo de um arbusto para o outro, agachando para ver uma herbácea, desacreditando nos capins que encontrava.


- Olha esta, Clau!!! Como é que pode, essa cor de flor é lilás ou é azul!?


- Olha, o que eu sei dessa planta é que ela é medicinal. Se pegar a raiz e deixar de molho em água, ela depura o sangue, é muito boa.


- Gente!!! E este arbusto! Pode uma coisa dessas, olha como a folha é prateada do lado de baixo!?? Não, e o tom de rosa da flor, é muito delicado!


- A minha vó usava essa aí como cicatrizante. Ela não é difícil de plantar não!


- Clau, vem cá! Já imaginou isto daqui em um jardim? Já imaginou um jardim todinho dourado!?


- Ah, esse aí já estamos usando na restauração, pode contar que vai dar certo.


- Meu Deus do céu. E esta aqui tem flor... preta!!! Com as folhas todas prateadas!


- Dessa aí o povo gosta, é até difícil de encontrar. O povo chama de incenso, porque solta um cheiro muito bom quando queima. Essa eu acho que deve ser difícil de plantar.


E assim fomos. Eu me espantando, ele me contando o que já sabia sobre as plantas, a gente coletando galhinhos pra eu levar de volta pra Brasília.


Vimos muita, muita coisa bonita.


No fim do dia, nos despedimos. O Clau me surpreendeu com um “obrigado, Mariana. Hoje eu aprendi muito.”


- Como assim, Claudomiro! Como que você aprendeu alguma coisa? Eu sim, agora sei de um monte de planta nova, e se elas são medicinais, fáceis ou difíceis de plantar... imagina! Você aprendeu o que?


“Eu nunca tinha visto a cor das plantas.”



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